Algum tempo atrás, vivi um daqueles momentos que a gente guarda no coração: uma das minhas fotografias foi premiada pela Bride Association, uma das associações mais respeitadas no universo da fotografia de casamento. A imagem reconhecida foi de um ensaio pré-wedding, feito em um lugar mágico: o Pico do Olho d’Água, em Mairiporã, durante o nascer do sol.
Era a primeira vez que eu me propunha a fotografar um casal nesse cenário, nessa hora do dia. Acordamos cedo, subimos a serra ainda no escuro, e fui guiado pela intuição, pela técnica e — por que não? — pela sorte. O céu colaborou. A luz nasceu no momento certo. E eu consegui posicionar o casal de forma que a luz natural se tornasse personagem da cena. Quando cliquei, senti que algo especial tinha acontecido. E aconteceu.
Meses depois, aquela imagem ganhou o reconhecimento de um prêmio.
Claro que foi uma felicidade imensa. Era um sonho antigo ver meu trabalho sendo visto, admirado, validado. Mas depois que a euforia passou, uma sensação curiosa se instalou: o que mais mudou depois desse prêmio? A resposta é: quase nada.
Não vieram novos contratos. Não vieram propostas. Não veio visibilidade real. Veio apenas um selo, um espaço entre os premiados e uma alegria que durou alguns dias. E tudo bem. Porque foi nesse tempo de silêncio que eu ouvi algo muito mais valioso: minha própria verdade.
Foi nesse momento que percebi que, apesar da beleza que existe na fotografia de casais e casamentos, o meu coração estava em outro lugar. Eu sou um homem negro, de axé, de terreiro. E comecei a entender que meu olhar precisava estar voltado para o povo que eu sou.
Deixei de priorizar os ensaios pré-wedding. Não por desprezo, mas porque minha alma me pedia outro tipo de entrega. Comecei a me aprofundar cada vez mais na fotografia de axé, nos rituais, nas festas, nas expressões da fé que sustenta e cura o povo preto. Comecei a fotografar não só com os olhos, mas com o corpo inteiro — com respeito, com devoção, com reverência.
Hoje, minha lente está voltada para os terreiros, para os orixás, para a beleza potente das religiões de matriz africana, para a cultura e resistência negra que sobrevive há séculos mesmo diante da intolerância e do apagamento. Cada clique é um manifesto. Cada imagem é um documento de fé, de beleza, de força.
Olho para aquele prêmio com carinho. Ele é parte da minha caminhada. Mas hoje, meu maior prêmio é ver uma mãe de santo se emocionar ao se ver retratada com dignidade. É ouvir um filho de santo dizer “essa foto tem axé”. É registrar histórias que foram apagadas por tanto tempo e que agora se afirmam com brilho nos olhos e no corpo dançante diante do sagrado.
Se você chegou até aqui, saiba que essa trajetória é real, é sentida, é vivida. E é só o começo. A fotografia me deu o poder de contar histórias. Agora, eu escolhi quais histórias quero contar.
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